Café sustentável é um café consciente do impacto ambiental, social e económico de toda a cadeia de valor.
O café faz parte da rotina diária de milhões de pessoas e para muitos de nós, é também um momento de pausa e de confraternização.
Mas já paraste para pensar no impacto que as tuas escolhas de café têm no ambiente?
A boa notícia é que não é preciso mudares tudo para fazer melhor. Pequenas decisões, desde o tipo de café que compras até à forma como o preparas, podem ter um impacto real – tanto ambiental como social.
Café sustentável
Os três pilares da sustentabilidade são: pessoas, planeta e lucro.
Assim, o café sustentável tem de ter um compromisso a longo prazo em tornar a produção, o comércio e consumo de café amigos do ambiente, socialmente justos e economicamente viáveis.
Apesar de ser um produto agrícola, o café está longe de ser neutro do ponto de vista ambiental. Pelo contrário, a forma como é cultivado, processado, transportado e consumido contribui significativamente para a desflorestação, perda de biodiversidade, poluição da água e emissões de carbono.
A pegada ambiental do café
Grande parte do café é cultivado em sistema de full sun (a pleno sol), o que implica a remoção de florestas inteiras para aumentar a produtividade. Esta prática destrói habitats naturais, acelera a erosão dos solos e aumenta as emissões de gases com efeito de estufa. A isto juntam-se fertilizantes químicos e pesticidas que contaminam solos e cursos de água, com impactos diretos nas comunidades locais.
Estima-se que a produção de café representa entre 40% e 70% da pegada de carbono total da indústria, dependendo do método agrícola. Entre os alimentos de origem vegetal, o café tem uma das pegadas de carbono mais elevadas, apenas atrás do cacau, com cerca de 17 kg de CO₂ por cada quilo de café produzido. À escala global, isto traduz-se em centenas de milhares de toneladas de emissões por ano.
Mas a sustentabilidade não é só sobre o ambiente, é também social. A Fairtrade estima que cerca de 125 milhões de pessoas dependem da produção de café para viver. Destas, aproximadamente 25 milhões são pequenos produtores, responsáveis por cerca de 80% da produção mundial. Apesar disso, muitos vivem em situações de extrema vulnerabilidade económica, com rendimentos instáveis e abaixo do limiar da pobreza. Ao mesmo tempo, a maior parte do valor do café fica nos países onde o produto é torrado, embalado, comercializado e vendido a um preço elevado.
É neste contexto que surge o conceito de café sustentável. Neste artigo, partilhamos hábitos simples e realistas para tornar o teu consumo de café mais sustentável, sem comprometer a qualidade ou sabor.
Green washing?
A sustentabilidade não é uma buzzword de marketing, tem de ser um modelo de negócio, um valor culturar e uma responsabilidade partilhada. Sustentabilidade não é só o que fazemos, mas como pensamos.
Chamamos de greenwashing ao que é pensado ser apenas visível (copos reciclados, logotipos em verde, selos de sustentabilidade), e sustentabilidade à ética e criação de sistemas que garantam a sustentabilidade – como pagamentos justos em toda a cadeia, rastreabilidade e manutenção da comunidade a longo prazo.
Sustentabilidade na origem
Nem todo o café é igual. O café de especialidade distingue-se não só pela qualidade na chávena, mas também pela rastreabilidade e práticas mais responsáveis ao longo da cadeia de valor.
Assim, ao escolher cafés:
- privilegia torradores transparentes sobre a origem e o produtor
- procura informações sobre pagamentos justos e relações diretas
- valoriza projetos que falem de sustentabilidade real, não apenas de marketing
Na Tasteology, trabalhamos com torradores portugueses que compram café de forma consciente e valorizam o trabalho dos produtores porque a sustentabilidade começa na origem.
Café solúvel ou instantâneo
Apesar de ser rápido e prático, o café solúvel tem um custo ambiental superior ao café em grão. Esse impacto resulta de três fatores: matéria-prima, consumo energético e embalagem.
Para produzir café instantâneo é necessário mais café verde por chávena – enquanto uma chávena de café de filtro necessita, em média, de 15g de café, o café instantâneo requer uma quantidade substancialmente maior de grão para compensar as perdas durante o processamento industrial.
Estudos de Análise do Ciclo de Vida indicam que a produção de café solúvel pode exigir mais do dobro dos grãos por unidade final consumida, quando comparado com café em grão, por a sua produção requer várias etapas adicionais em relação ao café tradicional. Após a torra, processo comum aos dois, o café solúvel é moído, extraído com água quente em grande escala, é feito um concentrado da extração do café e, depois, é feita a secagem do concentrado. E, para ser consumido, será necessário fazer um aquecimento de água para a preparação.
O café solúvel é tradicionalmente distribuído em frascos de vidro que, embora sejam recicláveis (de forma energicamente exigente), aumentam as emissões no transporte, devido ao peso, exigem altas temperaturas para ser produzido e têm uma pegada de carbono superior a embalagens flexíveis por unidade de produto.
Segundo um estudo publicado em 2023 sobre sustentabilidade dea produção de café, o café solúvel ou instantâneo pode exigir até 11 vezes mais energia por chávena do que o café em grão moído e preparado em casa.
Certificações – sim ou não?
Embora certificações como Fairtrade, Rainforest Alliance ou Bio sejam bons indicadores, não são uma garantia de qualidade, sustentabilidade nem devem ser ponto de distinção para com outros cafés que não têm certificação.
É necessário pensar as certificações com espírito crítico – a certificação de um café exige um investimento financeiro e pode exigir alterações no processo de plantação, colheita ou processamento do café que não é possível a pequenos produtores ou não fazer sentido na origem.
Para além disso, a certificação é, muitas vezes, ligada a um compromisso vago que não se traduz em mudanças estruturais. Mais importante do que o selo, é a clareza da informação e a transparência sobre a origem e processo de produção do café.
Torradores locais
Ao comprarmos café apenas de torradores nacionais, não estamos só a reduzir a cadeia de logística, mas também a aumentar a transparência e a fomentar a economia local. Para além disso, o café de especialidade em Portugal é apenas torrado por pequenos produtores, ou seja, a compra do seu café apoia os pequenos negócios.
Desperdício
Não podemos falar de sustentabilidade no café sem falar no fim da cadeia – o desperdício.
Cápsulas de café
Todos os anos, milhares de milhões de cápsulas acabam em aterros. A reciclagem, que nem sempre é feita, é também complexa. Assim, optar por café em grão será sempre mais sustentável.
Reutilização
As boras de café, assim como os filtros de papel, são biodegradáveis e óptimos para compostagem. As borras podem ser utilizadas na jardinagem, para neutralização de odores e para limpeza, garantindo que não há um desperdício de um material no final de cada chávena de café.
O método de extração
Os método de preparação do café também tem um impacto energético e ambiental. Assim, os processos manuais, que apenas necessitam do aquecimento da água, sem precisar de criar pressão, são requerem menos eletricidade do que os elétricos.
Mas, mesmo optando por um equipamento elétrico, é importante fazer uma escolha consciente – comprar 1 equipamento que dure 10 anos é mais sustentável do que vários com uma vida útil curta.
Sustentabilidade – processos e consciência
A sustentabilidade é feita de criação de processos e de consciência nas opções ao longo de toda a cadeia do produto. Uma decisão isolada não é solução. No entanto, cada escolha positiva contribui para um sistema mais justo e equilibrado.